O governo federal concluiu em junho a primeira
etapa da privatização da Eletrobrás, por meio da venda de ações na Bolsa de
Valores. Deixou de ser o acionista controlador, embora mantenha o poder de veto
quanto à mudança do estatuto da empresa. Arrecadou cerca de R$ 33 bilhões e
pretende arrecadar mais R$ 30 bilhões nos próximos anos. Apenas em 2020, a
empresa teve um lucro líquido de R$ 6,34 bilhões, ou seja, em uma década, o
lucro da empresa pagaria sua “venda”. Ainda que uma estatal não devesse buscar
o "lucro", mas sim fazer mais investimentos e garantir serviços mais
baratos, esses números mostram a escandalosa entrega de mais este patrimônio
estratégico aos capitalistas do setor.
Nos últimos seis anos, a empresa perdeu mais de
metade dos funcionários, passando de 26.008 para 12.527. O plano de
“reestruturação” serviu à preparação para sua venda. A empresa deve transitar
para a mesma política de preços da Petrobrás. Ou seja, a população arcará com
os preços mais altos na energia consumida, como já sofre hoje com o preço da
gasolina, gás de cozinha, diesel, etc.
Mesmo caminho é trilhado na privatização dos
Correios. A ideia é vender de forma fatiada, repassando os ramos lucrativos.
Por isso é tão importante para o governo aprovar o PL 591/2021, que quebra o
monopólio estatal. O plano de “reestruturação” já começou. Desde 2020, apesar
dos lucros bilionários dos últimos três anos (só em 2021 foram 3,7 bilhões), a
empresa vem quebrando uma série de direitos trabalhistas dos ecetistas,
reajustando os salários abaixo da inflação e mantendo o déficit de funcionários
(o último concurso foi em 2011). Bancos públicos e metrôs ainda públicos também
estão na mira do privatismo, assim como empresas estatais.
O
eleitoralismo desvia o enfrentamento à política privatista
O que fizeram e fazem as direções sindicais dos
setores atingidos pelas privatizações? Apenas lobby parlamentar e, nos últimos
anos, campanhas virtuais de denúncia. As federações dos trabalhadores dos
Correios, FENTECT e FINDECT, por exemplo, comemoram cada audiência pública ou
reunião no parlamento. Nunca fizeram uma campanha realmente poderosa e nacional
para se opor à privatização. Capitulam agora como já capitularam as direções
sindicais dos trabalhadores da Eletrobrás e da Petrobrás.
Nossa resposta deve partir da caracterização de que
se trata de uma política do grande capital, do imperialismo, de dilapidar as
riquezas nacionais das semicolônias e sustentar o parasitismo da dívida
pública. Políticas que são aplicadas por governos de esquerda e de direita,
seja com leilões, abertura de capital, concessões ou Parcerias
Público-Privadas, por exemplo: Collor privatizou a Usiminas; Itamar, a CSN;
FHC, a Vale do Rio Doce; Lula entregou as hidrelétricas de Jirau e Santo
Antônio; Dilma privatizou aeroportos e entregou o Campo de Libra, de petróleo;
Temer anunciou privatizações, mas deixou para Bolsonaro executar.
As direções reformistas iludem os trabalhadores
dizendo que a candidatura de Lula/Alckmin reverterá este processo ou o estancará. Nada
mais falso e mentiroso. Lula, para se eleger, teve que se comprometer, em 2002,
a manter os acordos com o imperialismo (basta lembrar a Carta ao Povo
Brasileiro). No cenário atual de prolongamento da estagnação da economia
mundial, a candidatura de Lula teve que se direitizar ainda mais na origem,
atraindo um símbolo do privatismo para sua chapa.
A defesa da Frente Única Anti-imperialista
Compreender a razão da política privatista é
entender que uma resposta a sua altura depende de um movimento nacional, de uma
campanha nacional, de uma frente anti-imperialista que defenda os empregos, os
direitos, os serviços públicos e as riquezas nacionais. Não é possível realizar
movimentos corporativistas e acreditar que a população defenderá as empresas
estatais sem que haja um movimento geral em defesa dos empregos, salários e
direitos. Exigimos que as centrais, sindicatos e movimentos se coloquem pela
organização de um movimento contra a privatização das estatais e pela
reestatização sem indenização das estatais privatizadas, sob controle operário
da produção.